Reaparições do Leviatã
Esta ilustração do Angeli foi publicada em julho de 2007 na Folha de São Paulo.
Aqui, a corrupção tem a forma de um gigante engravatado, com malas em ambas as mãos. Seu corpo é constituído por uma infinidade de indivíduos, da mesma forma que o Leviatã de Hobbes. Teria Angeli partido daquela imagem ancestral?
Se pensamos no Leviatã de Hobbbes, o gigante engravatado torna-se o próprio Estado. Entretanto, na imagem do Angeli talvez possamos conectar o gigante à própria sociedade brasileira?
No Leviatã, a única parte do corpo que não é constituída pela multiplicidade de corpos é a cabeça, a qual representa a unidade da vontade soberana, capaz de decidir sozinha. Aqui, no monstro do Angeli, mesmo a cabeça do gigante é formada pela multidão, como se a corrupção fosse o todo que funciona em todos.
O Leviatã de Hobbes tem em suas mãos a espada (símbolo do poder político laico) e na outra um cetro (símbolo do poder religioso). Ambos os poderes estão unidos no mesmo ser que representa a fundação do poder soberano. O gigante do Angeli tem ambas as mãos ocupadas por malas executivas, provavelmente cheias de dinheiro. As próprias malas são feitas de indivíduos, como se o poder ou dinheiro que elas carregam fosse feito por/através das pessoas.
No Leviatã, a imagem do soberano surge no fundo do
quadro em grandes proporções, no horizonte do território, tendo à sua
frente e abaixo a cidade devidamente ordenada, formada por zonas de
fortificação militar, muros, residências e igrejas. O gigante de Angeli tem à sua frente também uma cidade imaginada. Alguns traços nos conduzem a pensar em Brasília.
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